Às vezes a humanidade se parece com um barco desgovernado, cujo capitão não sabe exatamente o que fazer. Mas, como a única opção é seguir em frente, a nave vai. E de um jeito incrível leva junto seus bilhões de passageiros sem que a sua imensa maioria corra maiores riscos.
Outras vezes, não.
Desde pirralho o cinema, a literatura e a vida me ensinaram que o capitão é o ultimo a abandonar o navio. E esse foi o primeiro fato que me chamou a atenção no tal naufrágio do Costa Concordia. Porque esse mítico costume náutico muitas vezes cruzou comigo em diversas situações, quase sempre de crise, citado por meus pais, meus treinadores esportivos, meus professores ou mesmo amigos, companheiros de uma roubada qualquer.
Nestas ocasiões, alguém levantava altivamente a cabeça, olhava com seriedade para o horizonte e repetia a frase surrada, mas cheia de boas intenções, demonstrando a sua firmeza de caráter e disposição em enfrentar uma fria até o fim, exercendo uma posição de liderança e dando o exemplo pra tigrada:
- O comandante é o ultimo a abandonar o navio.
Ao entrar para a galeria global dos covardes, o capitão Francesco Schettino não depositou no fundo do Mediterrâneo apenas a sua reputação. Junto com ela também foi a pique uma aura de nobreza cultivada por milênios pelos comandantes dos sete mares. O capitão Edward John Smith, que afundou com o Titanic, deve estar soltando borbulhas do seu túmulo no Atlântico.
Agora, uma coisa a gente precisa admitir: o comportamento do capitão italiano não tem nada de original, principalmente se a gente olhar para as figuras públicas que andam por aí. Veja se essa história não parece familiar: uma autoridade anda bem vestida e acompanhada de uma mulher mais jovem frequentando os melhores restaurantes (do navio, no caso). Em um ato de exibicionismo, registrado nas redes sociais, ele põe em risco propriedade de terceiros (o navio) e a vida de milhares. Ao ser chamado na responsa, mente sobre onde está e não assume a responsabilidade que lhe dá status. E para terminar incrivelmente parecido como outras histórias que a gente conhece, chora publicamente e diz que estava cumprindo ordens.
Enquanto isso, o seu staff (a tripulação) não sabe o que fazer e também mente para as autoridades (em terra). Não há procedimento padrão de crise, gerando o caos. Os passageiros também não ajudam: adultos responsáveis brigam pelos coletes salva-vidas e o “mulheres e crianças primeiro” é mandado às favas.
Relembre algumas situações recentes na política, na economia e nas revistas de escândalos e repita com Francesco Schettino:
- Mas sou só eu? Cadê os outros?
















